Monthly Archives: Agosto 2009

Tão Somente

Tudo é incerto e nada é concreto.

Aparentemente esta frase pode fazer algum sentido contudo, nada é assim tão linear, receio até; que tudo talvez seja nada.

Á parte isto, termino daqui de onde me falo, com a consciência que sempre tive e mantenho, com a lucidez que é plausível, sempre dentro da liberdade que me aprisiona, definindo sempre o término das minhas palavras como se qualquer coisa faltasse dizer. Há sempre alguma coisa que nos escapa, fica sempre alguma coisa por dizer, talvez porque não nos permitamos partilha-la, e ela ficará sempre por revelar, por isso tornámos-nos incompletos, naquilo que eventualmente queremos dizer, mas não dizemos. Cabe ao tempo, permitir, desenrolar todo o “novelo” toda a teia construída por nós. Não nos bastamos. Se assim não fosse? O que seria de nós?

Marcos Santos


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O Aprendiz

Esta festa, realiza-se dentro de um espírito criativo, cujo o retrocesso e o consequente avanço são as vias escolhidas para uma melhor compreensão, de um tempo cujo o seu resultado espelha-se sobre cada um.

Na verdade, para além desta viagem na época, de me proporcionar a “aventura” de perceber, comparando, a realidade de um momento em determinadas circunstâncias e a exactidão de outro, em circunstâncias diferentes, estas duas realidades confrontadas simbolizam ao aprendiz a capacidade de entendimento sobre dois momentos, caracteristicamente desiguais.

O mergulho interno, subentende o encontro consigo mesmo, numa manifestação de alegoria sobre a verdade que transporta, manifestada em acontecimentos cuja emoção em determinadas circunstâncias, é o epicentro da fogosa atitude em relação a um quotidiano que se prevê de aprendizagem básica, relacionadas com as questões primordiais para o primeiro avanço.

Por outro lado, a razão é de facto a questão central da nomenclatura de si, para com as conjunturas universais, cuja sua complexa questão, abre o abismo da relatividade que gera a conjectura, de poder e não poder, tal como do entendimento obscuro. A consistência de todas as questões que integram a singularidade do ser, como resultado de uma auto avaliação que anteparei como um seguimento de todas as acções que se antepuseram à primeira questão.

A primeira questão que ao ser colocada, depreende o derrubar do muro, e o abrir da porta para o inferno, esse sarcófago secular, denominado de criação, seguramente terminado e sublime na sua excentricidade, inigualável e único.


Razão VS Emoção

A Razão vs emoção

Simplesmente soberbo.

Toda esta singularidade, que pretende ser dentro de um equilíbrio composto por duas “peças” fundamentais, complementares e que conseguem entre si, proporcionar um entendimento e por vezes um desentendimento; a razão e a emoção.

Pois claro. Ambos percebemos, dentro de um razoável raciocínio, saber fazer essa distinção, que por vezes nos leva ao abismo. Esse labirinto magnifico, que nos mostra a nossa real concepção de ser. A consciência, permitiu-nos dentro de um conhecimento que vai para alem de nós, perceber esta magnitude de complexas atitudes razoáveis e não razoáveis, partindo do principio que todas elas são consequência, de um estado, cuja razão é o protagonista, dentro do que é sensato; e do que não é razoável cujo protagonista desta é a emoção.

“A luz do Sol brilha sobre estes dois paralelos”, que rasgam toda a essência, sobre esta presencialidade, de estar e de sentir, num abraço ao universo que nos abrange num todo.

A espontaneidade, uma das características da emoção, por sua vez também, uma das características de quem nada tem a temer relativamente ao que diz respeito a si mesmo e ao mundo que atrozmente o observa por detrás de uma cortina. Essa qualidade, hoje, menos rara, muito embora, e com  algumas reservas, não seja habitual proporcionar-se num quotidiano vasto de melindres e receios provocados pela razão que faz o equilíbrio dessa supra citada qualidade.

Contudo, temos o exemplo da criança, habitualmente vista como estando ainda numa fase de elaboração e coordenação das suas emoções, no entanto ela representa o que de mais belo existe no universo, ao dizer isto automaticamente fazemos uma comparação por mais que o nosso propósito não seja esse, ela (criança) é o resultado de múltiplas fusões mas para alem dessas fusões ela transporta consigo desde a sua nascença um mundo de vicissitudes, transformações, e marcos da história no entanto, nos primeiros anos ela é o fruto mais genuíno do mundo, genuíno porque ainda não surgiram alterações no foro comportamental pelo facto de a sua razão ainda não ter capacidade de reacção diante do universo que a rodeia por conseguinte, nessa fase a criança é movida em função das sua emoções e sentimentos verdadeiramente únicos.

Há medida, que a criança vai crescendo, vai também descobrindo pelos seus próprios meios todos os novos sentimentos razão pela qual nessa altura verifica-se uma transformação comportamental em virtude de uma consciencialização do verdadeiro mundo embora ainda não totalmente compreendido contudo, a sua razão já “desperta” consegue agora perceber e captar determinados conceitos e verdades de um outro mundo que não existia na sua primeira fase de relacionamento com o seu eu.

Percebe agora, a pequena mudança muito embora ainda não esclarecida sobre uma estrutura que a envolve.

Marcos Santos


A Substância

Dedico este livro,

Á cratera de silêncios talhados

No universo da mística verdade,

Para si,

De mim.

PREFÁCIO

Este livro, é o resultado de uma análise profunda do conhecimento, perante a inexistência de recursos escritos. A base de todo este saber não é mais do que o pensamento, as considerações, os fundamentos existenciais na mais nobre bíblia humana escrita no lugar mais recôndito do ser.

O apoio que considerei relevante para este livro foi a verdade esculpida no centro do universo humano como resultado de uma avaliação sem portas nem paredes por deitar abaixo.

É um facto irrevogável, por sua vez contestável mas sobretudo respeitado pelo ser mais desacreditado do universo do pensamento.

Apoiei-me em vivências antecedentes á minha existência e corro agora o risco de perder toda e qualquer credibilidade ao dizer que todos os factos foram vividos não de uma forma existencial mas transpondo o obstáculo do tempo.

Á primeira vista pode parecer ilusório, sem qualquer fundamento mas cabe á vossa consciência e á vossa inteligência perceber e saber separar essa diferença, no meu ponto de vista este livro cabe perfeitamente em determinada prateleira, determinada porque este livro revela a meditação do ser no seu segredo oculto da mais preliminar revelação enquanto vida.

É um dos meus livros mais meditados e trabalhosos sem qualquer apoio de qualquer entidade  seja ela de que natureza for.

A relação que mantive com a introspecção que transpunha a barreira da época foi de uma dificuldade acrescida pelo retrocesso que tive de fazer do presente para um passado longínquo, foi trabalho árduo.

Deixo-vos então esta obra como o reflexo de um espelho, silêncios talhados no universo da mística verdade.

A Consagração

Estou de pé no centro da sala, vitoriosa, a luz do Sol raia, a sala essa mantêm-se fria nas paredes intactas do movimento do ano, no meu peito brilham todas as constelações do universo através de um raio que entra pelo buraco da fechadura,

todo o movimento se mantêm silencioso dentro destas paredes onde cada uma guarda a sua história, dirijo-me agora á janela visionária de contemplações mundanas e por entre o gelo entranhado e farta de olhares, mais uma vez observo através de ti a paragem do universo.

Sento-me relaxadamente na cadeira que baloiça a minha alma entre tudo e entre todos os pensamentos que um dia hão-de permanecer, nesta viagem de encontro.

Pleno o dia de sensações que se manifestam em mim como despertar das emoções ocultadas na razão de uma consciência trancada.

Caminho agora pelos corredores do meu castelo de paredes de pedra estancadas pelas relvas lamacentas do perdurar dos anos e do frio que nelas criou, a relação que mantenho com o meu castelo é de uma confidente memória que ficou resguardada nestas paredes íngremes e no momento protagonizado por um novo amanhecer. Envolto pela mera circunstância de ainda permanecer no cúmplice estado congeminado pelo sussurrar dos assobios temporais numa espécie de chamamento dos Deuses numa menção honrosa ao universo astral.

Curto o espaço que o tempo tem entre a minha consciência e a minha passagem, farta de horas longas de pensamentos contínuos, nas madrugadas longínquas feita de pequenos nadas e longos olhares penetrantes no dia que sucedeu á fatídica hora da mudança, de caminhares apressados nas ruas envelhecidas protagonizadas de uma vida cravada nas longas ramificações das árvores que acompanham a brancura das casas.

A luta interna que me devasta o sossego de ambições futuras atadas na pressuposta resolução feita de paredes sem portas que não me fazem parar, sobretudo sabendo que dentro daquilo que expiro na real concepção do ser, jamais o tempo o parará, oportunamente criará a insustentável

Inquietude de me ver cingido ás circunstâncias que povoam o estado de inúmeras reflexões dentro das quatro paredes que envolvem toda esta incógnita do amanhecer e do virar da página.

Tempestivamente recolho-me num estado de cansaço pós reflexão, sobre a emotividade que gera agora a recusa de estar vencido sobre mim mesmo, numa reviravolta da vontade e da força que sobrepõe á temporária desilusão juntamente com a frustração estampada no decair da cabeça como uma derrota.

Ajoelho-me hipocritamente sobre a divina imagem enlaçando as mãos como de uma força interna se tratasse, naquele momento de indignação e perante a promiscuidade que envolve todo aquele ambiente de peso sobre a consciência quase como se estivesse a ser chicoteado pela franca mentira atulhada naquela selvática encomenda feita pelo diabo em forma de Vaticano. A pressa com que me ajoelhei e levantei era como se me desatasse de uma tortura imposta pela circunstância de não me enquadrar neste cenário de falsidades que corroem as mentes.

No momento em que parei, relembrei rapidamente toda aquela sensação de inconsciência levada pela incapacidade de me movimentar perante tanta violência causada pela mágica dissolução de estarmos cientes da ofuscada tentação que caia sobre mim como se fosse puxado pela mão do diabo.

Em breves segundos relembrei. Segundos esses primordiais para a tranquila consciência do estar consciente, muito embora me tenha abalado todo este episódio de uma liberdade arrogante constituída por homens que se dizem ser a voz do Além.

Caminho num céu aberto de manifestações pessoais coberto pelo estar fundido com o universo de pensamentos unipessoais que me levam de volta ao meu real mundo dentro do castelo que me recolhe como uma subvenção do meu estado de sentir e pensar todo o universo.

Esta singularidade, não manifestada entre os homens e as mulheres que juntos procuraram a verdade submersa no mundo oculto que transportam sobre si toda esta imensidão de circunstâncias na sua relativa e complexa fusão entre o ser e toda a filosofia envolvente no permanecimento do estar.

A hipotética relação entre o bem e o mal, escrita nos velhos livros, coloca a razão no equilíbrio de ambos travando uma luta devastadora que levará á exaustão tornando-se assim num impasse.

Cheiro o perfume das camélias carregadas de botões que desabrocham toda a particularidade da beleza prescrita na fecunda imensidão de uma pétala caída tornando-se despida sobre um chão coberto por um tapete avermelhado.

A magnifica mudança, provocada pelas trocas de uma constante força, que permanecem ligadas numa relação de envolvência concebida no estado natural da sua procriação e da sua morte como consequências de uma nova folhagem onde se reacende a chama de um novo nascimento. O ciclo é sempre o mesmo, o botão concebido como o ventre materno, o desabrochar como a chama de um novo “amanhecer” as pétalas que surgem como o desenvolvimento do ser, a mudança da sua cor que pressupõe ser o seu amadurecimento, e entretanto na sua secagem rugosa e posterior o seu envelhecimento e por fim o cair das pétalas; a morte imediata.

Sento-me diante da janela mundana, num pensamento distante, bem lá no alto onde as ovelhas pastam direccionadas pela vara do pastor que as encaminha para o cimo do monte verdejante de uma povoação campestre e rica de costumes e manjares de (chorar por mais).

Perco-me no aroma típico das casas, nas mão enrugadas de sabedoria, no chapéu de palha poisado no banco e a mesa farta de carnes tratadas com a perícia e cuidado de mais um ano que passou, tudo na minha boca sabe a pouco.

As roupas cobertas pelo cheiro da lareira e lá fora a chuva que não pára, não tarda ai e as folhas estariam cobertas pelo “manto de brancura da indescritível paisagem fotográfica, parada no tempo que a não deixou morrer.

Ah… se soubésseis o que me vai na alma quando aqui me sinto.

Se por um bocadinho respirásseis o vento que me passa.

Se conseguísseis perceber toda esta grandeza que me dificulta e me cala absorvendo toda esta paisagem inigualável que respira parada.

Na noite que cai, todas as estrelas invadem o universo. Não é preciso ter olhos para ver. Gélida a manhã de canto, sorriso do outro lado da rua, que posso eu mais querer quando tenho tudo isto?

Se um dia a manhã não abrir então eu estarei morto, e serei mais um dos tantos filhos do intemporal dia seguinte.

Por momentos, no meio de farrapos de neve que caíam, o Sol sorriu meio envergonhado, estatelou-se na janela húmida da noite de orvalho que antecedeu, e de repente…choveram pequenos raios cintilantes do calor que fugiu.

O momento permaneceu parado por segundos, fiquei gelado no meio de um deslumbramento que me encheu a alma.

Quis o dia amanhecer enquanto bocejavam as galinhas num cocorocó orquestral, num instante dei por mim já numa rua estreita que ia de encontro aos folares recheados de carne feitos com primor, com um acompanhamento silencioso enquanto mordiscava o primeiro das duas fatias que havia comido, nesse instante a minha mente saboreava o momento único de prazer do qual eu desfrutava o mais que podia, e num entretanto…clipe…”evaporei-me” antes que a vontade me voltasse para a desejosa gulosice de comer o folar.

“Farto de sabores” voltei-me para o lado de fora e caminhei agreste diante de um passeio alegre de cachopas que a bem dizer seguiam direitinhas para a missa das sete, assim anunciava o relógio monumental daquela catedral para lá dos montes, que se elevam diante de um vale de casas como o recheio de uma cereja, manifesta a paisagem soberana eleita numa junção de várias alterações terrestre, que dali fizeram o alpendre aberto de uma vila acanhada no leito de duas elevações como um castelo sem telhado. Calcei as sulipas e coberto por uma manta desci a estrada de volta á peregrinação que sustenta a minha vontade de conhecer o mundo para lá da janela mundana do meu castelo e por entre as casas feitas da pedra atulhada por manifestações da natureza e do tempo, que acolhiam as almas naqueles colchões de palha esburacados que ainda se mantinham úteis nas velhas mãos que neles seguravam.

Ainda no meio do monte onde a noite já se fazia, caminhava entre as falas dos pássaros e demais animais. Amanheceu depressa. Foi descanso de pouca dura, estava na hora de por os pés ao caminho.

O olhar da criança suja de lama, calcando a terra numa manifestação de alegoria que trás á ideia a plenitude de um sentimento profundo na expressão de uma focagem virtuosa da sua beleza ancestral.

Calcando a estrada modificada pelas intempéries de jornadas diárias, segui caminho deixando para trás toda uma ideia de bem-estar e bem viver protagonizado pelas gentes e sabores daquela terra no entanto, levo comigo o castelo de pedra para reflexões, meditações e descansos. O velho caminho de ferro ligado á outra margem, conduz-me numa viagem do pouca terra agora já esquecido e “enjaulado” naquele coberto que tantos anos terá quanto o comboio ali permanecido contudo, as linhas paralelas proporcionam ainda a capacidade

de não me esquecer daquelas viagens de uma beleza cujo o sentimento guardado é indescritível, por mais que da memória eu possa puxar. Neste entretanto, enquanto viajava na memória, qual o espanto em que me deparo nos subúrbios de mim e da mudança citadina e das gentes que nela vive como qualquer coisa de estranho.

Muito embora, até eu pudesse ter estado enclaustrado no pensamento continuo de mim para com o mundo e no entanto, não me tivesse apercebido da sua transformação, mas em todo o caso, afinal, talvez até tenha algum repudio pela sua transformação e por todos os melindres nela envolto.

A viagem segue-se agora no meio de socalcos e vinhas, mais lá para a frente avista-se a pequena vila abalroada pelas encostas que a protegem como filha da natureza, parece até ser de propósito com o propósito, sente-se já os cheiros típicos da terra.

Encontro isoladamente a casa que em outros tempos alojou senhores em quartos devidamente aconchegados, claro que hoje pouco sobra dela mas continua a servir portanto, foi lá que passei a noite.

Num frio intenso e húmido que percorre aquela vila rodeada de finas camadas de gelo entranhadas no cimo das encostas que alberga a vila acanhada do Douro. Amanheceu, e já os cestos se arrebatavam das uvas que os homens e mulheres de mangas arregaçadas e com um pano em volta da cabeça carregavam sobre elas os cestos pesados para o lagar, não conheciam outro mundo.

Calcei as sulipas, vesti a “farda” domingueira e mais uma vez fiz-me á estrada, passei os longos carvalhos do monte e de bragasta em mão fui abrindo caminho por entre as silvas que me tapavam a vista, derrubando-as atravessei caminho e fui de encontro pelo encosto do monte á parte interior do fim ou do principio do Rio Douro (depende sempre do ponto de vista).

A maresia vinha lá do longe.

Olhei á minha volta e veio-me á cabeça a sensação de um abandono, da minha parte, ou da parte do mundo, que me olhava sempre com uma certa distância no que respeita ao modo de eu ver a vida em sociedade e o modo como a sociedade me vê. Talvez por isso, eu tenha vindo gradualmente e sem se dar conta disso, afastando-me e criando um mundo dentro de outro mundo.

Mundo esse perigoso. Digo perigoso, em virtude de não ser uma escolha, mas sim uma forma de estar na vida, para com a sociedade e para comigo mas ao contrário daquilo que se possa pensar esta forma de estar também têm as suas consequências e as razões nela evocadas. Contudo, poucos são aqueles que optam por esta via, é mais fácil cingirmo-nos á forma da sociedade do que optarmos por uma nova…a de cada um.

Por isso, hoje, transporto comigo um sentimento e ao mesmo tempo um pensamento de certa forma equivalente a uma ambiguidade manifestamente obscura. Em todo o caso, não deixa de ser por isso que manifesto em mim a certeza daquilo que sou e daquilo que pretendo em relação a mim.

De certa forma, esta longa caminhada representa o prosseguimento da minha aprendizagem e meditação de múltiplos costumes, gentes, e tudo aquilo que as envolve; á priori, parece ser um facto sem importância mas enganam-se aqueles que assim pensam porque á posteriori e depois de uma reflexão pode-se perceber que tudo tem importância na medida em que nos assemelhamos sempre; mesmo que estejamos longe da sua realidade e também da de cada um.

A coragem, ou talvez a inconsciência ou até e porque não; a consciência me levem por caminhos que outros foram capazes de percorrer carregando com eles o mistério que os mantinha e lhes proporcionava o seguimento por um caminho atroz, cheio de vitórias e derrotas que lhes davam ânimo para a sua caminhada.

A verdade que eles transportavam seria a água e o pão do seu esforço.

Junto de mim e perto do universo, existem uma série de compostos que proporcionam ou condicionam a constituição de cada indivíduo, sempre subjugada pela circunstância de estarmos pendentes de uma consideração pressupostamente condicionante da certeza real e independente, de que cada um se intitula.

A mera circunstância de eu ter decidido fazer esta longa travessia, trás “acorrentada” a si o julgamento precoce de múltiplas individualidades agarradas á incapacidade de uma auto decisão e de levarem a cabo as suas concretizações que iram traçar a via personalizada de cada individuo.

Sussurram em cânticos as aves poisadas nos ramos dos pinheiros.

Sons medievais que se distinguem divinamente, numa manifestação de esplendor recolhido no coração do mundo lírico, as melodias soltas entre os ramos trazem repuxadas no âmago uma indescritível essência natural herdada do fundador.

Esta simbiose harmoniosa, de cantos imaculados produzem novas sensações da palavra pelo mundo divulgada, que originou a unificação ou parte dela diante de uma ideologia e misticismo fecundo num mundo de pobreza e crença. Esta palavra veio posteriormente criar o abismo encoberto na devoção das gentes seguidoras de um Deus maior.

Trás o vento em nome do tempo a mudança circunstancial de uma fé abraçada á cruz intemporal que a verdade pensou mudar. A promiscuidade com que hoje se fala dessa palavra leva-me a reflectir sobre o mundo em que hoje vivemos, tirando elações nada promissoras de uma vida “vestida” de ocultações, jogos e imposturas de uma civilização que se rasteja com o peso da sua consciência.

A cósmica imagem abisma da cruz trabalhada na mensagem e não deixada ao acaso com a pressuposta razão da consagração do levitado ser em redor de uma causa perdida, numa ostentação de poder religioso, sobre a impiedosa fraqueza da alma.

Estende-se agora o horizonte profundo e inatingível sobre o mar infinito, com a ofuscada luz que raia em pleno voo da andorinha numa libertação do bater de asas que apregoa as boas novas de um novo amanhecer primaveril.

Cai sobre a terra o primeiro olhar do desabrochar da essência que gera uma multiplicidade de florescimentos capazes de invadir toda a sua externa beleza espontânea. A noite, cobre-me agora o pensamento difusivo num mediterrâneo de concepções alusivas ao místico labirinto do ser eu.

Complexas, as formas de manifestações internas produzidas na raiz do ser, heréticas as concepções que suprimiram a excêntrica voz do monte, das árvores, das flores, do lago e de todos os oceanos que inalteravelmente banham as encostas rochosas da erosão e do desgaste provocado por um senhor Deus tão natural como as folhas das árvores, dos rios, dos vales e todos os caminhos que comungam com o universo de genuinidade.

A causa de todas estas conquistas advém de uma quimera formada na minha excentricidade como recomeço de uma real fecundidade utópica, hoje exacerbada na consciência trancada.

Traz-me a astúcia o feitiço de permanecer vivo na cosmopolita liberdade do pensamento na manhã que “naufragou a noite”; rebento de um clarão intenso parido. Permite-me a voz da alma sucumbir-me numa ideia de uma constatação

que assinala a continuidade da ilustre presença que se adivinha na resistente demonstração de mim para com o mundo.

Assim prolongo a minha caminhada com a plena convicção de que estou certo daquilo que penso com o dever de instituir a verdade na bíblia difamada e difundida aos quatro ventos.

Desço pelo “carrilho”da elevada serra de encontro á planície que “desliza” sobre um mato de ervas onde pastam as vacas vindas da ladeira; esta metafísica que não se exprime por palavras, leva-me por vezes ao subterfúgio da montanha onde me encontro e analiso num entendimento do mundo que dentro de mim gira. Lá longe, ouvem-se as ondas, filhas das marés vindas do infinito, que vêm abraçar a costa e voltam a ir para depois as suas irmãs em sua vez voltarem de novo á costa; e deslizando as águas barulhentas as gaivotas lá ao fundo mergulham a cabeça meticulosamente numa saudação lendária. Em tempos e no tempo em que o tempo intemporal, permitia o mundo caminhar no seu espaço numa leveza de ar que equacionava a existência universal de uma era em que a sua excentricidade estava no seu esplendor, algo entretanto e entre tantos mudou e mudou de forma que atingiu a própria forma que no seu momento se deformou contudo, embora neutra a posição da forma continuamos aqui cada um formado ou deformado consoante a sua formação ou até possivelmente a sua deforma ou seja: que não tem forma. Nestas variantes todas cada um e só por si mostra a sua unilateralidade na sua invulgar condição de ser, numa pressuposta união entre o ser e a razão.

O ser que permite ao ser o ser consoante a sua razão. e+e= e/r= (er) .

Esta equação permite-nos perceber que o ser está sempre condicionado pela razão e esta por sua vez  faz o equilíbrio das suas emoções.

Rasgo de um crisântemo num chão levantado, arco-íris folhado, sublime.

Enquanto me compenetrava na verdade esculpida na pedra talhada, a dúvida persistia na mística percepção das ocultas verdades que me invadiam para a caminhada do dia seguinte, e neste momento no ponto mais longínquo atravessava-se á minha frente o horizonte incandescente e por entre os ramos das árvores, raios de luz se rompem como relâmpagos que se espelham nas folhas dos troncos e que me iluminam de vida.

Num movimento circunferencial e na existência de um ponto central á circunferência onde me encontro, desenha-se uma identidade uniformizada de

uma absoluta universalidade e de uma excêntrica galáxia inexplorável, cuja sua totalidade é de uma fonte inacabável. Estou agora sentado numa das rochas, irmã de muitas outras, filha do núcleo da terra e á minha frente observo este mar intenso de vida, este oceano de múltiplos prazeres, utópico, relativamente ao universo terrestre, impotente o ser quando se depara com esta vida por debaixo deste azul profundo, intocável, que se resguarda na sua autenticidade como fruto proibido. Esta imensidão que oculta os seus pilares e as suas bases como referências ancestrais de princípios e valores nela mergulhados, a imperceptibilidade que me faz retroceder ao umbigo cósmico do grão á areia e ao seu desencadeamento, como forma natural do posterior envolvimento nas fases da sua actividade e alteração do mundo como pilar do conhecimento.

Este retrocesso não vem na história dos livros. Não. Este recuo dá-se numa linguagem sentimental que trás á ideia a imagem do seu sentimento, proporcionando-me a veloz viagem no tempo que em nada se alterou, o holocausto que em boa medida nos mostram em nada se sobrepõe á razão da verdade da humanidade, e a toda a sua evolução enquanto existência.

Despenho-me em horrores primários, quase até pré-históricos que me revelam uma tempo cabalista de uma sociedade sem ambições de se tornar única, uma confraria de mentecaptos.

O rompimento da aurora traz-ma a sensação  da desfolhada caracterizada pelo aparecimento de uma nova unidade, sem qualquer tipo de assemelho  para como o outro ou mesmo de uma conexão, a confraternização deixa de ser uma utopia para passar a ser vista como um átomo isolado.

O vazio tomou parte de um comportamento do ser, que veio posteriormente dar a conhecer o lado escuro da humanidade, desempenhando um papel  bárbaro, resultado de uma ausência de diversos factores que se enquadrariam numa sociedade aberta de princípios e valores.

Julgo que a verdade lícita, criará a insusceptibilidade de outra verdade, que tentará criar o desequilíbrio da razão facultada.

O tempo suprime-se mascarado e tudo o que resta é aquilo em que nós nos tornamos; o bafo que de dentro de nós sai cessa.

Apoquentam-se aqueles que o sossego já não sossega.

E enquanto isso acontece, a linha cintilante que atravessa o mar de uma ponta á outra; sorri-me. E a descompressão dá-se.

E a esperança que invade a madrugada de Outono, num utópico pensamento que a razão balança dependente sempre de uma primeira sensação agarrada a uma meditação turva que engana a mente, proporcionando-lhe um dilema que confunde a vontade que cega a verdade embebida num momento contraditório da circunstância que depende. E depois… a denúncia. O momento da culpa que nos atravessa de uma ponta á outra e castiga, a nobre verdade que nos afronta defronte do espelho que nos rompe a alma e a desgraça que cai sobre os joelhos que nos debruça e envergonha. Fútil manhã.

A procura que nos reserva o vazio, essa máxima que nos mantêm sempre incompletos, inacessíveis ás nossas emoções nessa insatisfação que nos moem, essa perceptibilidade que nos aproxima… essa matéria que nos torna… essa incumbência que trazemos na origem do ser, essa relação de proximidade que nos oculta, essa sensível questão do existir, num absolutismo imperfeito da nossa razão, essa qualidade de ser, essa raiz templária.

“Elevo-me aos céus com a grandeza com que parto daqui” e lá em baixo; a planície imóvel desmascara-se diante de mim como se tornasse nua, a visão que agora se torna real desespera-me…inconclusivo pela razão que dentro de mim corre, a imagem perturbadora até demasiado perfeita esconde a sua magia por detrás da sua essência e o alivio… equilibra agora o que me vai nos subúrbios da minha concepção. O prefácio que oculta todo o seu misticismo no núcleo onde é concebida a verdade comutável do seu exterior, por imposição de uma alteração cósmica por sua vez transformada pela acção degenerada do mundo, mostra agora por acção dos ventos e das marés a sua complexa força movida dentro de uma esfera que desassossega a culpa adormecida dos seus intervenientes.

Chovem relâmpagos do céu estonteante como flechas indígenas, faz-se luz entre a escuridão da noite, o barulho insurreccionado, intangível, de uma força inigualável faz-se ouvir no lugar mais longínquo do seu epicentro, extraordinariamente demolidor e justo á sua medida, deixando a perplexidade tomar conta… impotência humana, divina a essência do que é profundo e natural, virtuosa natureza, inesperada e voraz.

O entendimento cósmico que crê ser de um conceptualismo ainda infundado pela razão que me parece ainda permanecer no segredo, sobre a alçada da mística criação, também ela ainda oculta na sua origem, facto irrevogável num contexto onde a verdade continua a ser posta sobre hipotéticas concepções.

A condição profunda, existencial da qual estamos pendentes, escraviza-nos no íntimo tornando-nos prisioneiros da nossa integridade fiel a uma constituição onde recai toda a nossa origem como seres pensantes e portadores de uma complexidade inacessível. A inviolabilidade com que nos debatemos, pressupõe uma corrida contra o tempo cujo o nosso conhecimento muito embora, tenha vindo a ter alguns avanços não demonstra a factualidade razoável para uma concepção ideológica credível na sua amplitude, o que isto implica a continuidade de um místico universo de compreensão.

O gesto impensável, instintivamente lançado, empurrado pela emotividade que demonstra a sua lealdade para com a sua verdade universal, toda a grandeza desenhada pelo gesto que advém de uma profunda relação de igualdade para com a concepção de ser, “regada” na sua essência intangível onde o abismado grão deu azo a uma raiz que por sua vez concebeu uma estrutura complexa, impar, numa presença que oculta o labiríntico e enigmático conceptualismo da consciência.

O núcleo designado como um átomo isolado, mantém dentro de si a verdade universal que ao longo dos anos foi alvo de sucessivas mudanças, não alterando no entanto a verdade pré escrita, contudo, a deformação foi consciente num mundo onde outras verdades foram sucessivamente impostas em circunstâncias adversas á sua real criação. Silenciada a voz da consciência, permitiu-se calar a razão e desvanecermos por detrás da nossa imagem.

O substrato nada me permite, senão a subsistência da sua verdade para com apocalíptica árvore da vida numa conjuntura de múltiplos pensamentos consequentes mas infindáveis de um enigmático começo, razão que os deuses ocultaram.

Esta procura fundada numa estrutura da relação mantida no seio do ser e de uma referência genética extremamente complexa e impalpável, conduzida por uma reflexão dentro de um pressuposto real, considerando a razão de todas as razões, num fundamento de semelhança congénita á presença soberba da genuína concepção cósmica e próxima, num contexto onde o recuo do tempo e do espaço se centraliza na união dos rios, dos montes e do ser, num universo único.

O momento define-se em circunstâncias que cri despontarem no útero da luz como réquiem da vida. Esta sensação revela-se num mediatismo espontâneo de

uma liberdade substancial numa natureza de semelhanças e contornos pré concebidos antes de qualquer aparecimento racional.

A mensagem transmite-se dia após dia, a sua receptividade adulterada por incautos que incansavelmente procuram distorcer a verdade secular e nativa de um universo celestial, no entanto, novos cérebros foram concebidos e a mensagem foi cedendo, perdendo o valor da sua fecundação, não preservando nem originando novas raízes que divulgariam a sua genuinidade. – Já foi tempo em que a Terra girava em torno do Sol. A via-sacra tem vindo a mover mundos, abiótica a palavra, penitência de uma cruzada, apaixonada e dolorosa caminhada da fé que se tornou o alimento da consciência do ser que submergiu na doutrina de uma vontade e posteriormente naufragou no encurralado labirinto da verdade. Crentes aqueles que em si findaram.

A deselegância com que plantamos ervas daninhas no seio das nossas fraquezas, considerando o erro do outro para justificação dos nossos actos com o propósito de nos ilibarmos de um juízo final da nossa consciência… e diante da casa de Cristo eu sou visto mais ou menos como o Golias opositor de uma farsa que a caracterizo  como a mão que tira o pão da boca dos meninos.

A emoção paira no ar sobre as bíblicas palavras esculpidas…regresso de um deus. Nobres os homens que semeiam a verdade, nobres são também aqueles que a cultivam. E trazida a manhã de novo, o céu rompe-se de azul e lá ao fundo o arco-íris abre-se como um leque e por entre todo este encanto que me adoça a vista ouve-se um musical abafado por entre todas as partículas que circulam no ar de uma orquestra resplandecente.

No entanto, a minha digressão ainda não acabou, continuo atrás da verdade que a terra semeou e que um dia hei-de colher.

Ah, se a vontade dos homens se antepusesse á única questão que os confronta, com a sua natural forma de se sobreporem ao mundo como sendo eles o centro do universo. Ah, se fosse esta a única verdade, se em volta de tudo isto a única existisse, se todas as razões se cingissem á razão.

Ah! Se tudo fosse uno.

A simplicidade tornar-se-ia o centro de cada um e todas as coisas haveriam de ser de todos o mundo partilharia este momento e todas as coisas deixariam de ter sentido e nós não seriamos milhões e tornar-nos-íamos no número um e então tudo o que eu escrevera até aqui deixaria de ter qualquer sentido para

passar a fazer parte da história e em resultado disto, eu também não estaria aqui, e não seria eu, passaria a ser o outro, a minha essência desapareceria tal como todas as coisas e tudo se tornaria opaco e a terra deixaria de existir, o Sol deixaria de ser uma estrela e tudo seria escuro.

Contudo, quando me olho torno-me… e volto sempre aqui, a este ponto de referência que me coloca no principio do mundo e no principio da minha vulgar condição de ser, a altura permite-me o recolhimento em análise de todas as minhas vitórias e de todas as minhas derrotas, valores que abraço como conquistas internas que  se colocam perante mim num estado da minha luta sem exclusão de qualquer circunstância, porque foram essas circunstâncias que estiveram no centro de cada uma delas.

A hipotética e talvez até surreal coexistência do ser e da terra, gera uma multiplicidade de riscos inerentes a um universo antecedente contudo, a sua simultaneidade conserva na sua fecundação uma relação de equilíbrios da sobrevivência de dois pólos distintos mas que convergem numa união comum entre “o bicho” homem e a terra protagonizada de uma riqueza submersa nas suas entranhas.

A criação de novos mundos, veio provocar o caos das sociedades, cujas suas doutrinas se regem por diferentes deuses, defensores aguerridos de visões, cuja sua referencia antecede qualquer um dos mortais deste século, religiões que mostram o mundo cada uma á sua maneira, por vezes até empunhando a arma sobre os frágeis braços das crianças tornando-lhes as suas consciências mortas de violência.

A antemanhã abriu-se antes da hora, pronuncio de uma mudança forçada, renúncia assinalada, tufão na madrugada, aldeia rasgada, onda desvairada e entretanto, o silêncio rompeu o momento e tudo permaneceu calado como uma manhã fúnebre e de repente ouve-se lá ao um fundo um gemido que estrondeou o mundo, uma mão pequena suja de lama se eleva, o olhar perdido procura a mão que não acha e tudo se torna demoroso, todos os segundos são horas de desafios e por momentos ouve-se um silêncio de morte que desafiou a vida e a criança nua caminha agora em direcção ao mar, senta-se na areia e olha-o.

A imagem ficou gravada na memória como um açoite.

Jamais se perdeu.

Responso da culpa oculta no silêncio da universal consciência humana, prelúdio do insensato olhar racional. E do outro lado do mundo ecoam chamamentos inglórios da perda, sobre tudo da inculpabilidade, do isolamento e da loucura.

Zorro! Fez-se noite no espelho do mar defunto.

O momento define-se como uma visão interna do universo pensante, numa auto análise profunda e critica de uma raça que se auto destrói dentro do mesmo habitat, a reflexão pretende com ponderação, uma pesquisa pessoal do seu comportamento para com o seu semelhante.

Estende-se ao longo deste percurso, um mundo de constantes prazeres aromáticos e auditivos, a adição de ambos, faz renascer a imagem bíblica do paraíso, esta congregação de cheiros da natureza e de sons profundos que atravessam a terra de um hemisfério ao outro,  percorrem mundos de emoções num sentimento comum e singular, de uma longevidade impar e crescente.

Prolonga-se extensivamente o azul transparente das nascentes, incorporadas no seio terrestre. Quedas de águas que se libertam da ilustre cordilheira transmontana, carregada de uma pureza sublime, desço a serra enquanto desliza sobre mim a bênção desta água vinda do submerso de um universo peculiar.

O olhar permite á sensibilidade manifestar em prol do seu encanto ou do seu  repudio,  as várias emoções vivas na alma, consoante o sentimento narrado no momento, a expressão de sentimentos instintivos revelam em si a verdade que  a mente transporta, na sua real concepção.

O estoicismo racional com que nos confrontamos, demonstra o esgotamento plural da humanidade, relativamente á capacidade de viver em sociedade, não menos perceptível é também, o “fantástico” contra-censo existente num mundo onde o pressuposto seria a unanimidade de um conjunto relativamente á sua sobrevivência num universo de todos, cuja igualdade seria uma norma adquirida num mundo onde predominaria a justiça para todos.

Não menos importante, é também a escalada ao monte, recomeço de um caminho já percorrido, na insistente e árdua “luta das barreiras”, pontos de alcance longínquos, apostas de um eu numa porta sem chave, estado emocional contrabalançado pela incerteza de pontos diferentes mas que se equilibram como contra-pesos, numa relação de intimidade única.

É esta a complexidade que nos limita, esta a fumaça que nos venda os olhos, esta a real ocultação dos prazeres sentidos no submerso e recôndito misticismo da génese.

… e funde-se em chama manchada a lua, mãe de um universo de estrelas, madrasta da noite rumorosa, filha de um céu incandescente, visionária luz resplandecente.

Exilei o pensamento numa postura silenciada pela incompreensão das palavras, elaborei dentro de uma conceptualizada visão universal de uma franqueza com que me afronto diante de um reflexão de mim próprio, custou-me o desconsola de não ter vivido as minhas ideias, ideias essas que são a minha edificação, a plenitude da minha existência, a continuidade.

No sussurrar da alma depreende-se o conflito interno de noções e concepções construídas ao longo dos anos na formação de inúmeras visões, algumas até criadas pela mera impressão de parecer, tornando a clareza da consciência duvidosa perante a incerteza insolúvel do esclarecimento da sua percepção.

A lua desce o pano de mais uma noite, na morta conquista que o olhar apregoa no sábio pensamento de uma inércia indignação da imagem que prescreve o recomeço de um outro dia de desamparo cristão.

E entretanto; a saudade…aquela visão que nos fica, que acompanha e nos rói a vontade, o arrependimento de não ter feito e novamente recomeçamos tudo de novo, como se fosse a primeira vez e a saudade então desvanece naquela hipotética concretização daquilo que nos roeu o intimo durante anos.

E a Terra volta a girar.

A perda. Essa interminável dor, essa dúvida perante os hipotéticos ses, essa dificuldade de aceitar, esse arrependimento cabal sufocado por todas as incertezas, essa incompreensão da factualidade, essa dificuldade que nos cala diante de uma impotência, essa rara consciencialização da verdade, essa lucidez viva que nos encontra no mais fundo dos poços da nossa existência, essa inacessível compreensão do sentimento inglório, esse cruel universo onde existimos como únicos.

Esse é o encontro do ser no lugar mais recôndito de si, esse o silêncio que perturba a alma no desequilíbrio das emoções, “o fantasma” que vive acordado no seio da existência, a promessa culpabilizada como uma fuga á pressão da

consciência, a questão que quando se coloca abre a porta do abismo, esse fruto proibido.

A janela aberta para o mundo, a incógnita sensação do vazio de estarmos sozinhos, a paragem que ofusca todo o universo humano, a sensação estranha de um abandono da parte que nos preenche, a inconclusiva presença do espírito no seio do ser, o caminhar atabalhoado  não se sabe bem para onde, a circunstância do desvanecimento que nos coloca na interrogativa procura da consciência que possuímos mas que no entanto periodicamente esconde-se e nós continuamos ali, num existencialismo sonegado.

Soam gritos mudos de lá longe, ruídos que “sufocam” a consciência, tremores internos de sobressalto, trovoadas vinda lá do longe e tão de perto sentidas, choros de meia noite, curvada a criança de cócoras brinca…

…e o céu escuro humedece a terra.

A estrada térrea ao abandono, prenuncia o infinito da sua terminação, o cheiro mórbido de caminhos inacabados realça o esgotamento físico “engolido” pela secura da terra e pelo desgaste provocado pela erosão.

Caminho sobre os corpos sem nome, pedaços de vida recolhidos pelo tempo, originários de outros mundos, noutras épocas de infortunadas lutas, tão reais como os tempos de hoje.

Ao percorrer este caminho longínquo do mundo que a vista nada alcança, a vontade e a força interna trava agora uma “batalha” entre essa mesma vontade e o desânimo de a vista nada alcançar mas no entanto, a procura e acreditação fazem percorrer dentro de mim uma verdade e unificação bombeada nas minhas veias que me regam e levam a  minha consciência ao fim do mundo.

E ao parar…recordo todos os caminhos percorridos como pressupostos ensinamentos, vitórias e derrotas, ambas vistas de igual forma e apostadas á sorte  numa desigualdade que nada me enfraquece nem desanima, esta caminhada que percorro sem enfraquecimentos internos por mais diversificadas vozes que se oponham á minha verdade.

No centro do meu reflexo avivam-se as dúvidas interrogatórias do desconhecido, existências enevoadas na sua biografia, análises elaboradas de uma auto compreensão.

“O dia nasceu com a mão fora da janela”, numa ante visão do sonho pouco esclarecido da madrugada que se antecedeu, sórdida a manhã que abriu, num

enevoado meio baço de uma luz encoberta pelas frias camadas gaseificadas num estado quase como que compenetrado na sua fútil manhã.

De uma musicalidade expressa no silêncio que cobre o vale encrespado no seio do rio transversal munido por uma força que rasga a montanha no seio da sua impulsividade de estados emparelhados e encrespados pela erosão que se faz sentir na génese de uma ciência natural que oculta o seu esplendor.

Nada foi feito ao acaso, a simples manifestação de múltiplos envolvimentos, cria no entanto, a sensação de uma mágica controversa de um entrosamento inabalável na estreita melodia do pensamento revirado na escolta da emoção de princípios sazonais de uma razão impulsionadora caracterizada pela sua união.

E em milésimos de segundos, tudo muda com num estalar de dedos.

Todas as convicções fixas, inabaláveis que sustentaram toda uma razão e todo um equilíbrio caracterizado pela sua solidez baseado numa conformidade de todos os seus ideais isenta de incoerências agora desaba como se de um castelo de cartas se tratasse. A razão pela qual tudo isto sucede, aparentemente não tem qualquer fundamento muito embora, até uma mera imagem possa perturbar e dar inicio ao desencadeamento de sucessivas manifestações outrora certezas de uma sustentável ou insustentável razão que á priori teria tudo para vencer.

Afinal, todas as certezas estão recheadas de todas as incertezas, embora até possa admitir que a razão tenha tamanha força que jamais qualquer abalo a possa derrubar, porque se assim não fosse tudo seria fumo.

E por momentos tudo se calou…o abalo natural convenceu-me, e neste instante o respiro profundo, o desmoronamento de uma incerteza pesada escorre agora sobre os meus ombros na compreensão de uma vida hermética que resulta da união dos seres e da terra e de uma liberdade que não acarreta a promiscuidade do poder mas transporta consigo a satisfação de uma independência e de uma obrigação coberta de valores criados no principio de uma era, valores esses que se traduzem na solidariedade entre os homens e as mulheres e no amor pelo próximo, pilares que sustentam a consciência.

Adormeço sobre eles numa tranquilidade que me mantêm inquestionável.

Razões que a própria razão desconhece, a não ser que a razão não passe senão de uma série de conceitos e fundamentos criados no seio de cada um ao longo dos tempos. Embora, assim não me pareça. A razão de ser trás na sua evolução

conceitos e fundamentos de épocas a.C. que hoje ainda são visíveis na razão de uma sociedade.

Hoje, o entulho amontoa-se concretamente nos subúrbios da consciência humana, resultado de uma perda de sentido e de uma integridade moral que hoje efectivamente conduz a um anarquismo absolutamente condenatório a uma desinteligência de uma sociedade em risco.

A tolerância; esse comportamento compreendido, essa luz de equilíbrio racional, essa humana percepção do entendimento, esse sossego próprio do conceito e da obrigação, essa realidade lúcida maioritariamente ilusória capaz desassossegar o próximo como se o próximo fosse a promessa incumprida e incompreendida do mundo que o olha distantemente, como se não existisse.

A procura; essa porta que não abre, esse muro que se depara, essa batalha árdua dos dias, essa questão que a consciência debate internamente num longo conflito de impedimentos patentes na conduta do ser.

Essa morte enigmática que não revela a certeza, esse sussurrar de conflitos interiores, essa dificuldade de aceitar a roda em que giramos e tudo nos proporciona a frustração silenciada pelo ranger dos dentes como uma perfeita impotência de nos elevarmos e o dia nasce como se a noite não tivesse passado e o tic-tac do relógio perpetua a cadencia de um naufrágio sobre o tempo surreal do sustento.

Esperei. Meditei a complexidade da causa, sucumbi-me em pensamentos resultantes de uma procura quase inacessível, caminhei até ao âmago numa busca inglória, não parei…mantive-me enquanto a arte assim mo permitir, qualidades encarregues da busca e na reflexão impetuosa de um dia a seguir ao outro, numa expectativa mística, infortunada pela imperceptibilidade que se demarca na sua longevidade missionária despontada no regaço do ser, e invejada pela abandonada meditação sobre a sua eminente faculdade de criação.

Já foi tempo. A vontade traz consigo a consequência assente na causa, adia-se mais uma vez aquilo que nos vai na nossa formação e deparamos com mais um atraso no relógio que nos semeia o envelhecimento como sequela do osso estado dependente sempre de um se.

Faz-se em demora o rendimento; fruto do desapontamento criado na fraqueza do pensamento do ser, que se esconde na vergonha que o evapora entre a multidão, ninguém se deu conta, a dor interior corrói enquanto a verdade

persistir no entendimento de um recolhimento que nos afasta do mundo que censura a posição e atitude enquanto a liberdade da cogitação for um facto adquirido todavia, suportamos ainda o fardo de vivermos numa embustice desavergonhada e distintamente consigo permanecer revelando uma forma de viver independente sem contacto ao nível da existência insistindo numa posição que me desvia deste universo, do qual não compactuo.

A força que me evoca, subtérrea em relação ao que é imediato, em contradições provenientes de uma complexidade que abrange todo o processo lógico, logrado na herança mundana do que é fundamentalmente, autêntico e intocável.

A reminiscência que me acolhe apoiada num equilíbrio racional, concilia a consciência na relação com o bem e o mal, atribuindo uma importância que não vai para alem daquilo que lhe é merecedor contudo, o refúgio do monte que me abriga situa-se na nascente de uma imponente deusa da vida, suscita a beleza inconfundível de uma autenticidade cujo o seu esplendor abraça toda a esfera.

Neva lá fora enquanto á janela espreito a lua submissa da noite que a empolga, criando na vista a abominável sensação de estarmos sós no meio de uma imensa luz que nos guia para a utópica imagem mais que perfeita e enquanto desço a face do monte, invejo a serenidade da paisagem que quase me obriga a reflectir profundamente sobre todos os caminhos a percorrer como se tratasse de todas as sementes que me dão a oportunidade de viver no meio delas.

Tomem-me por louco aqueles que assim o entenderem que por sua vez são aqueles que a sociedade os vê como “os ignorantes”, ou chamem-me ousado aqueles para quem a ousadia não passa senão de uma opção e não de uma conquista.

Parece-me então correcto afirmar que o ser possui conhecimentos antecedentes á sua existência mesmo não os tendo vivido, talvez até por razões religiosas que de alguma forma lhe daria uma visão possível do mundo, real, não absolutamente real mas possível, sobre hipotéticas presenças de um outro universo de meditações e misticismos transcendentais, realizados dentro de uma concepção ideológica presumivelmente tão real como a dúvida dos incrédulos.

A liberdade é um conceito, que acarreta sempre alguns compromissos para com a o outro e para consigo mesmo, partindo-se de um principio que a razão está sobreposta ao limite como obrigação de um final da liberdade de cada um no entanto, esta liberdade camuflada de razões e de obrigações constrói um mundo

de privações relativamente á liberdade condicional a que estamos sujeitos no que respeita á condição humana sempre estrategicamente obrigada.

Sendo assim, posso pressupor que estamos diante de uma maquinação de um sistema incoerente com todos os princípios humanistas de que a existência se rege. Este maquiavelismo sintomático ao qual estamos “condenados” de uma politica de califas que protagonizam o circulo fechado para que os chamados “muros” sejam hipoteticamente construídos na mente do ser para que este não possa viver de uma  forma digna; o poder essa arma que usurpa as vontades dependentes de uma criação utópica, que enfraquece e domina a diferença numa sociedade que só lhe resta a demonstração da pobreza mental fabricada pelos fracos.

A ânsia. Esse desequilíbrio que permanece intranquilo, essa desunião humana que roda em volta de si, esse olhar que acarreta a incompreensão do próximo, essa luta que trás a fúria escondida no seio da existência, uma espécie de canibalismo adormecido, essa escolha entre Deus e o diabo.

Foram folhas de Outono caídas dos arbustos que carregavam a manhã nebulosa, de uma noite turbulenta que decidiu agitar o pensamento que adormeceu desassossegadamente num dia que fingiu ter-se escapulido da razão, formada no âmago de um ranger tenebroso da ida.

Afogaram-se princípios em nebulosas partidas de uma consciência intacta que incessantemente procura entre as suas entranhas a verdade que sustenta a sua existência.

Nefasta a rigorosa inclusão de sonegadas atitudes concebidas numa ideia de poder apoiada na exclusão de partes partindo de um principio perigoso em virtude de ser concebido por uma matéria explosiva que afasta a tranquilidade de uma próxima relação com a posterioridade, nesta “viagem” que assombra o principio de que tudo existe deste modo enquanto eu permanecer e que todo o resto é pura abstracção da real concepção da vontade e do querer.

Esta censura demolidora de uma razão aparentemente capaz de sobreviver até á exaustão.

Dei por mim num silencio reflectivo de apatias, que me vinham desassossegando a minha vontade de continuar a caminhada que havia planeado nos subúrbios da minha consciência, deparei-me, “numa estrada sem saída,” após me ter questionado sobre determinadas estupefacções que considerei não serem e não

fazerem parte da minha estrutura como pessoa, percebi num questionário aprofundado ao seio da minha existência, que fui desmultiplicando toda a complexa razão porque tudo se havia alterado, demolindo barreiras que questionavam toda a inexistência de factos, percebi que o fundo da questão estava longe de ser alcançada e nada se poderia resumir a uma aparente desmistificação da estrutura que me completa.

Posto isto, tudo se tornara mais universalmente complexo, a razão que deveria ser conhecedora de uma verdade, tornar-se-ia imposta numa ideologia de misticismos sem que existisse uma pré concebida história da humanidade. Hoje, mais do que nunca, entendo, muito embora com algumas reservas, que cada vez mais é –nos proporcionado no quotidiano razões  concebidas numa estrutura de impedimentos que nos cingem á nossa vulgar condição de ser.

Mas…(tudo vale a pena se a alma não é pequena).

De novo voltei; enquanto tentava perceber a magnitude deste universo, completo de mistificações que me prendiam quase a uma constante meditação sobre mim e sobretudo o que faz de mim aquilo que sou, á priori poderia pensar e chegar á conclusão que tudo aquilo que sou deve-se a todas as gerações antecedentes a mim  mas isso seria simplificar a questão e reduzi-la  ao nada muito embora elas tenham também a sua influência enquanto raízes da minha estrutura como ser pensante, no entanto “as culpas” não se reduzem a tão pouco, considerei isto como um grão no centro de um monte, nunca menosprezando o grão que me encheu de vida muito embora tudo se tornara mais complexo com a inserção num universo de complexidades que tiveram impacto no desenvolvimento do ser contudo, a terminação desse mesmo fosse concebida por mim.

Vi aquilo que jamais desejo voltar a ver. Era como se o mundo sugasse o corpo, mas a integridade, a fidelidade a si mesmo, a resistência por mais que saiba que não tem forças que cheguem, mas que dentro do seu ser existem razões mais do que suficientes para não ceder, e são essas razões fieis a si mesmo que traçam o quadro macabro da supremacia que advém de uma consciência intacta, que se manteve inatingível no centro da sua formação como uma realidade para alem dos dias que decorrem como insignificantes para aqueles que de si mesmo ousaram trair.

Testemunhei e aprendi, mais do que derrotado fisicamente, ele conseguiu-se manter para alem de todas as expectativas, por mais abalado que estivesse,

persistiu a razão que o manteve erguido na sua fidelidade, na sua integridade e sobretudo na sua formação como pessoa que jamais cedeu.

Foi decerto uma luta árdua, que ele venceu, por mais que as forças já não chegassem.  Jamais saiu pela porta de trás; venceu no momento em que as vozes se calaram, foi silêncio que durou uma eternidade pairado na lembrança que lhe valeu.

Alvorada despertou-se num grito glorioso, o momento tornou-se num marco definitivo de uma lembrança que mudou a perspectiva sobre si mesmo e vangloriou toda uma mensagem futura que iluminou no entanto, nada se torna eterno, muito embora o marco se tenha tornado definitivo, até porque; por mais definitivo que o marco se possa ter tornado seria também ilusório pensar que tudo mudou e o fim se alcançou, “foi só mais uma carta que se jogou”.

Contudo o espelho onde é reflectida a vitória e como consequência mais uma porta que se abriu pode no entanto numa visão cujo o orgulho se sobrepõe á razão, pode por instantes ou até mesmo definitivamente, enganar a consciência atirando-o assim para um abismo quotidiano de uma incógnita para o dia seguinte, “tudo fica em jogo” de modo a poder levar-nos á loucura de um equilíbrio sonegado nas entranhas de um auto convencimento.

A vontade, esse sentimento consciente dos riscos, essa razão que trava forças com as emoções, essa penitencia que cria uma exausta reflexão da razão e depois, todas as considerações, todos os riscos que criam um muro e que traçam caminhos obscuros e tudo acaba como sempre esteve, com ou sem razão mas a vontade continua viva com um massacre quotidiano, a oportunidade não surge e cingem-se ao á frustração dolorosa do não poder, e rege-se ao conceito moral de que não abdica que por sua vez encurta as possibilidades, ainda não chegou a hora de olhar só envolta de si, como o Universo tão bem sabe fazer e a diferença revela-se neste comportamento que se demarca.

Valeu a pena? Nem tudo vale a pena mesmo quando a alma não é pequena, se me perguntarem se vale a pena? Neste contexto? Sim, claro, tudo vale a pena se a alma não é pequena.

Contudo deixo ainda alguns resto de reticências, em virtude de a linha não ser  continua, ou como é costume dizer (nem tudo é estrada). O valer a pena também pode servir de “ombro” ao desconsolo de quem já gritou e não se ouve gritar, por mais que a voz lhe doa. Será correcto dizer, que por mais que não nos tenhamos

apercebido, o universo onde vivemos actualmente, passou a ser a pedra agarrada pela mão, protegida pelo coiro da fisga e a pontaria exacta ao alvo que comemos ou vamos ser comidos, esta realidade hoje presente numa sociedade de promissores desaparecimentos relativos á fisgada que te tombará. Cada vez mais, a uma velocidade perceptível de uma caminhada para o abismo numa desassossegada janela que mostra a luta entre os homens tentando á medida que vão chegando provocar o seu derrube para mais uma vitória da invulgar condição do ser este pressupostamente alterado no seu estado psíquico hoje reafirmado como o ser mais estúpido do mundo.

Este insecto nojento que nos morde e come aos bocadinhos na passagem de um dia á dia onde nos escapam as emoções das quais até por vezes nos demonstram quem nós realmente somos por mais que não queiramos aceitar nesta consciência de beldades.

Marcos Santos


Ética, Direito & Deontologia

A ética está para o direito como

A ideia para a palavra: sem a ideia, a

Palavra é inútil, porque não realiza

A comunicação; sem a ética, o direito

Fica vazio de conteúdo, porque não

Realiza a justiça.

Se a ideia é a semente da palavra, a

Ética é o pão do direito e a fome da

Justiça.

O homem é um ser eminentemente social, com vocação para viver em sociedade. Esse relacionamento com os outros impõe o respeito de normas de conduta, ou seja, de certos princípios éticos. Por outro lado, o equilíbrio das relações sociais e a resolução dos conflitos, pressupõe um sistema regulador jurídico – judiciário, com as suas leis e tribunais, para aplicar o direito e realizar a justiça.

Historicamente as normas de convivência ética precederam o ordenamento jurídico. Este surgiu quando se verificou a necessidade de tornar imperativas aquelas normas. O direito é, assim, uma exigência social da ética.

Ética e direito são, pois, realidades inseparáveis e complementares, ainda que, como escreveu Radbruch, constituam “grandezas” de natureza diferente, pois enquanto a ética tem uma dimensão moral, o direito tem raízes sócio – culturais (1). Precisamos, por isso, de clarificar, embora sucintamente, os respectivos conceitos.

Ética, no sentido social (do grego, êthê, costumes), é a ciência normativa primordial, traduzida no conjunto de valores que devem reger o comportamento do homem na sua vida de relação, de modo a alcançar-se a paz social ou harmonia dos contrários de que falava Heraclito. Para Aristóteles a ética é a primeira disciplina filosófica, pois respeita à actividade prática do homem, nos seus elementos constitutivos e nas suas finalidades morais.

Direito, no sentido positivo (jus in civitate positum), é o conjunto de leis que se destinam a prevenir e dirimir conflitos, e a realizar justiça (do latim de-rectus, o que é justo e recto). Assim, justiça é a medida e o fim último do direito, a fonte, ou ideia que deve inspirar toda a proposição jurídica (2).

Deste modo, a rectidão dos comportamentos entre cidadãos, e entre estes e o Estado, é o fim da ética e do direito, o que implica a eticidade das leis, ou seja, a sua inspiração no bem e na justiça, e pressupõe a construção de um estado ético. A sociedade bem ordenada, coo lhe chamou John Rawls, tem como fundamento o bem dos seus membros. É uma sociedade na qual todos aceitam os mesmos princípios de justiça e de equidade, e o Estado os procura realizar através das suas instituições. A justiça, segundo este professor de Harvard é a primeira virtude das instituições sociais e, por isso, não pode ser objecto de qualquer compromisso (3).

A necessidade de normas que disciplinem, proíbam ou imponham certas condutas é, pois, uma exigência da vida em sociedade. A tese da bondade natural do homem, e o contrato social de Rousseau, está ultrapassada pela  conflitualidade que, ao longo da História, marcou todas as civilizações e que, no nosso tempo, atinge o vértice, ou o vórtice da tragédia humana.

Por isso surgiram, deste o alvor dos séculos, as leis e os tribunais para prevenirem e dirimirem os conflitos, em suma, para realizar a justiça. A noção de justiça, o mais antigo anseio do homem e base de todos os sistemas filosóficos é, porém, muito controversa. Foi Aristóteles quem primeiro a definiu, e a sua análise permanece actual. O filosofo grego distinguiu entre justiça comutativa e justiça distributiva. A primeira preside ao comércio jurídico – por exemplo, à regulação dos contratos. A segunda consiste em tratar diferentemente cada um conforme os seus méritos ou, dito de modo actual, em dar a cada um aquilo que lhe pertence (4).

No primeiro caso, estamos perante a justiça dos tribunais. No segundo caso, entramos no domínio da justiça social, expressão utilizada pela primeira vez por XI na encíclica Quadragésimo ano, e que hoje é geralmente usada no seu sentido politico – ideológico.

Interessa-nos especialmente o primeiro sentido – a justiça como organização judiciária, que se destina a aplicar as leis – embora, porque falamos de ética, façamos uma outra incursão no campo dos direitos sociais. Mas a justiça de que vamos falar é a actualmente existente nos Estados civilizados, e não a dos primórdios, em que se confundia com a força, e o direito era a lei do mais forte, o qual, para justificar as prepotências e arbitrariedades, invocava a bênção de Deus, pois todo o poder dele provinha…

No nosso tempo e após lutas seculares, que culminaram com as declarações dos Direitos Humanos, a lei é, ao menos teoricamente, geral e abstracta, igual para todos, e provém de órgãos democraticamente legitimados e controlados. É o que chamamos o Estado de Direito (5).

Para ser justa, provém, a lei deve ter um conteúdo ético. Efectivamente, nem sempre a lei incorpora o direito, e nem sempre o direito realiza a justiça, que é o seu último. Quer isto dizer, que a lei deve procurar a conciliação do homem consigo próprio, com os outros e com o mundo, de modo a realizar a paz e  convivência sociais, ou seja, a Harmonia Universal. Para tanto, deve inspirar-se em princípios e valores éticos que, tendo, naturalmente, mudado ao longo da História, foram, do meu ponto de vista, sintetizados pela Revolução Francesa (1789) na clássica trilogia que se tornou no grande motor do humanismo e se mantêm inteiramente actual: Liberdade, Igualdade, fraternidade.

Liberdade, como já escrevi, é o poder de cada um se auto determinar responsavelmente, sem pôr em causa a liberdade dos outros, ou seja, segundo Marx, “o direito de fazer e exercer tudo aquilo que não prejudique os outros”, de modo que todos possam usufruir dos bens sociais e conquistar a felicidade. A intervenção repressiva do Estado sobre a liberdade de acção do individuo só pode justificar-se para evitar prejuízo legítimo de outrem. Esta “auto – determinação individual”, de que falou Kant, é um pressuposto da liberdade colectiva. “Eu sou eu e a minha circunstância, e se não salvo esta, não me salvo a mim próprio”, anotou Ortega e Gasset. Mas as circunstâncias são, sobretudo, de carácter social, pelo que a liberdade pressupõe, como ensinou António Sérgio, a realização das suas condições concretas, ou seja, a garantia dos direitos sociais (o direito ao ensino, à habitação, ao trabalho, à protecção de saúde e à cultura).

A questão da liberdade levanta problemas complexos, de matriz filosófico, politico e até religiosa, que não cabe aqui abordar. Direi apenas que a liberdade, como direito fundamental, é condição sine qua non da dignidade do homem e pressuposto do progresso social.

Mas há que encontrar um ponto de equilíbrio entre a liberdade individual e o interesse colectivo para que o exercício desse direito não ponha em causa harmonia social. A este propósito louvo-me na feliz síntese que Almeida Garrett escreveu no prólogo do seu “Portugal na Balança da Europa” (1830): “em dois grandes escolhos se perde a liberdade: na tibieza com que se defende, ou na demasia com que dela se goza. Evitemos em ao outro”.

É o problema dos limites legítimos à liberdade ou seja, dar a cada um a possibilidade de realizar a sua vontade, desde que não impeça os outros de exercerem o mesmo direito. Dito

de outro modo, a liberdade não pode afectar a igualdade. A igualdade de direitos é condição da liberdade. Esta pode ser limitada pela lei, mas sem lei não há liberdade (6).

Igualdade é outro conceito controverso.

Para os liberais será pouco mais do que uma abstracção, pois resume-se na garantia legal de proporcionar a cada um idênticas condições à partida. Para um socialista e democrata tem um sentido mais profundo: é a garantia efectiva de igual acesso, segundo o mérito e as necessidades, aos direitos sociais, devendo o Estado assegurar patamares mínimos de dignidade e bem estar.

Assim, enquanto os liberais se satisfazem, por exemplo, com uma lei que garanta a todos o direito ao ensino e à saúde, deixando a cada um a capacidade de se auto-satisfazerem , os socialistas preocupam-se com essa mesma  lei crie os mecanismos e serviços destinados à concretização desses direitos, protegendo especialmente a população mais carenciada para a  realização efectiva da igualdade dos cidadãos.

A igualdade na atribuição de direitos e deveres, e a garantia da sua efectiva realização, é um principio básico da justiça. Podemos mesmo afirmar que só a igualdade completa de todos os homens realiza i ideal da justiça perfeita. Não é por acaso que o seu símbolo, desde a  mais remota antiguidade, é a balança de dois pratos.

Do meu ponto de vista, só esta preocupação social dá conteúdo humanista e ético ao ordenamento jurídico. Desde Platão e Aristóteles, até S. Tomás, Marx e os filósofos contemporâneos, todos estão de acordo que só a igualdade dá sentido à justiça.

Fraternidade é o vértice superior do triângulo de valores éticos atrás referidos, e consiste, essencialmente, na construção de uma sociedade baseada na paz, tolerância e solidariedade. Sendo o vértice superior, repousa sobre os dois outros de base, constituídos pela liberdade e pela igualdade. Estes dois valores são, assim, um pressuposto para se alcançar a Fraternidade, a Humanidade Universal, que é a ideia mais velha do mundo, a utopia por que se bateram os poetas e revolucionários de todos os tempos, desde Jesus Cristo a Luther King, desde Gandi a Che Guevara (7).

Segundo Sócrates, a ética é um estado de consciência, porque só esta permite distinguir o bem do mal.

Mas a nossa consciência é o resultado sensível da nossa memoria arcaica, das nossas vivências, da nossa cultura, do nosso conhecimento do mundo. O homem é a sua circunstância, como disse Ortega Y Gassett e, de modo parecido, Karl Marx. Por isso, e como já referimos, os valores éticos tem variado ao longo dos tempos e segundo as diversas escolas filosóficas. E não admira, porque se trata de um ideário que se destina a orientar a conduta humana por certos padrões morais, com vista à obtenção da felicidade individual e da harmonia colectiva. A própria vida é uma ética. Daí que tais valores tenham de ser assumidos pelo legislador, se quiser, como, aliás, está inscrito no preâmbulo da nossa Constituição, modificar a vida, construir uma sociedade mais livre, mais justa e mais fraterna. De facto, os deputados constituintes de 1976 inspiraram-se na trilogia histórica para traçarem p rumo do futuro. Deste modo, a Constituição da República, matriz de todas as leis, é, ela própria, inspirada nos mesmos valores éticos.

A realização do bem e do bom – no sentido colectivo, é perfilhada por Marx e Sartre. Cada  homem ocupa uma determinada posição social e histórica, e é produto dessa realidade, dessa circunstância. Daqui decorre, segundo Marx, que não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência. A estrutura económica da sociedade é, segundo o filósofo alemão, “a base real sobre a qual se eleva o edifício jurídico e politico e ao qual correspondem determinadas formas de consciência social”.

Para Sartre, o ser humano é ontologicamente livre, pelo que o homem “não é mais do que o que ele faz”, pois, “o homem está condenado a cada  instante a inventar o homem”. Por isso a liberdade é constituinte da condição humana.

Mas a condição humana é universal. Assim, o destino do homem está nas suas mãos, nas mãos de todos os homens para alcançarem a felicidade.

Deixando de remissa a velha questão sobre se é a liberdade individual que realiza a liberdade colectiva, ou esta que concretiza aquela, parece que todos os pensadores citados estão de acordo que a ética é uma exigência da vida e que o seu objectivo é alcançar o bem de todos e de cada um.

Deste modo, a primeira obrigação do jurista e do legislador é, como afirmou Wilhelm Sauer, “conhecer as necessidades permanentes e primárias do povo, as mónadas (designa os elementos das coisas, termo pitagórico) de valor da vida social, e inferir delas a vontade colectiva, o bem comum,” ou seja, acrescento, o verdadeiro sentido da ética social. O ideal do direito é, pois, a realização do bem comum (9).

Do exposto, creio ter deixado bem claro que o respeito pela ética, considerada como a realização do bem e do justo, é pressuposto essencial do direito. Para tanto, a lei deve traduzir o mais amplo consenso social, pois, como sublinhou Iering há uma “ íntima relação” entre direito e consciência colectiva. Tal aferição encontra o seu ponto axial no plano dos direitos fundamentais, assim chamados por serem inerentes à condição humana – os direitos civis, políticos e sociais, reconhecidos por todos os países democráticos e consagrados na nossa Constituição.

contudo, existem interesses, como  a segurança do comércio jurídico, que justificam certos desvios de valores éticos.

É o caso da prescrição, que permite a aquisição ou perda de direitos pelo simples decurso do tempo. O credor que não exige o cumprimento da obrigação em tempo útil, ou o proprietário que permite que outrem o utilize, em certas condições, o seu prédio, vê precludido o seu direito.

Outro exemplo, é a amnistia ou o perdão de penas. A primeira  “apaga” o crime, como se ele não tivesse existido. O segundo elimina ou reduz a sanção penal. Em ambos os casos, o direito fica lesado, porque o incumprimento da pena decretada pelo tribunal não restabelece à ordem jurídica violada.

Porém, estas situações  não são, verdadeiramente, anti-éticas, pois a consciência colectiva aceita-as como normais. O que vale dizer que a ética está, ou deve estar, sempre presente no espírito do legislador, embora não haja leis perfeitas. Para que tal acontecesse, seria necessário que a lei fosse feita por Deus…Ora, a lei é produto  da vontade do poder. E este é

sempre a expressão da classe dominante. Por isso, só um regime genuinamente democrático assegura as condições mínimas da eticidade das leis. É necessário a partilha de poder pelo povo, para que o povo possa governar-se a si próprio e haja uma pluralidade de centros de decisão e de órgãos de fiscalização. É necessário como disse Montesquieu “que o poder trave o poder”. Afirmo assim, que só a democracia participativa garante a coexistência da ética e do direito, e o respeito pelos humanos.

Revertendo agora estas considerações preliminares para o problema do Direito, em geral, e dos Direitos Humanos, em particular, concluirei que o ordenamento jurídico para ser eticamente justo, deve inspirar-se na nossa tríade, isto é, deve respirar e fomentar a liberdade do homem, deve criar as condições para a sua plena igualdade, e deve ter como objectivo final a construção da fraternidade entre os cidadãos.

O respeito por estes três pressupostos é que confere à lei um sentido ético, justifica a sua imperatividade e legitima, em caso de violação, sanções coercitivas, que podem implicar a privação da própria liberdade.

O direito deverá ser, nesta lógica, um instrumento de realização da ética, digo, do bem individual e colectivo, um instrumento, afinal, para melhorar a vida e dar-lhe uma dimensão verdadeiramente humanista. Esta concepção da eticidade do direito poderá designar-se, por “ bio-antropo-ética”, capaz de conduzir a uma “antropolítica”, ou seja, adaptando aquela terminologia à problemática em apreço, capaz de gerar uma antropolítica legislativa, fundada na ética, ao serviço do homem.

Entre os grandes valores ético-morais assimilados pelos ordenamentos jurídicos dos países civilizados, podemos referir os princípios da boa-fé, da equidade, do “in dúbio pro reo”, e o direito de resistência contra a violência e contra as leis ilegítimas.

Exposta em traço grosso de que o Direito é uma Ética e de que esta pode sintetizar-se, na referida trilogia, com vista a realizar a felicidade do homem, é altura de apresentar à discussão questões concretas, algumas intencionalmente polémicas:

­— A pena de morte: a punção capital. Atenta contra o bem supremo, que é a vida, e fere letalmente o valor da fraternidade. Alem disso parte da ideia de que o criminoso nunca poderá reabilitar-se, (o suposto morto também não, olho por olho, dente por dente), e aceita o risco de não se poder corrigir o erro judiciário, que a História mostra.

A mais elementar exigência ética no Direito Penal impõe a abolição da pena de morte, e mesmo da prisão perpétua, de que Portugal foi pioneiro.

—   O tráfico e consumo de droga: problema actual e dramático, à escala planetária, que gerou ou induziu um aumento drástico da criminalidade, deve merecer, segundo os princípios atrás delineados, tratamento diferenciado. O traficante é inimigo da sociedade, que apenas se motiva, friamente, pelo lucro sujo e que põe em crise todos os valores éticos.

o consumidor é, pelo contrário, um ser normalmente indefeso, verdadeira vitima de gente sem alma e sem escrúpulos.

A lei deve ser rigorosa e severa para os traficantes, e compreensiva para os consumidores. A despenalização ou descriminação do consumo, condicionada de reinserção social, constitui politica legislativa que merece a minha atenção.

—   ­As uniões de facto: a possibilidade de duas pessoas de sexo diferente viverem em comum, de modo matrimonial, já escolhida na lei, é legitima eticamente, em nome da liberdade de cada um escolher a sua própria vida.

Mas a igualdade perante a lei impõe, a meu ver, que as uniões de facto não possam ser equiparadas ao casamento. A lei deve tratar diferentemente o que é desigual, e o casamento estabelece vínculos próprios, dos quais devem derivar direitos e deveres próprios.

—   Eutanásia: tema extremamente delicado e em foco nos últimos tempos, de grande incidência ético-moral, merece uma reflexão especial. Eutanásia, deriva do grego eu/bem, thanatos/morte, e significa boa morte, morte tranquila, sem sofrimento.

Há três tipos de eutanásia: a activa, que consiste numa acção voluntária a pedido do doente em estado incurável terminal, ou de sua família, destinada a poupá-lo a uma dor inútil e excruciante; a passiva, que se traduz em não ministrar ao doente tratamentos ou medicamentos que apenas lhe prolongariam precariamente a vida sem lhe reduzir o sofrimento; finalmente, a eutanásia eugénica que permitiria a supressão dos seres humanos com anomalias, a fim de evitar uma vida dolorosa.

A eutanásia eugénica, praticada na antiguidade (Esparta e Roma) e mesmo durante o nazismo é hoje geralmente admitida, face aos avanços da ciência médica, na forma de interrupção voluntária da gravidez. Questão mais delicada é a sua prática após o nascimento, justamente, porque a ciência permite detectar a malformação ou a doença grave no ventre materno. Se não  se actuou em tempo oportuno, o direito á vida, como valor  ético-jurídico fundamental, impõe, a meu ver, que o Estado acolha, em instituições adequadas, esses seres humanos.

Quanto à eutanásia passiva ou por omissão, considero-a legitima. A lei não sanciona a sua prática e o próprio Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida aprovou um

parecer, por unanimidade, admitindo a suspensão da meditação, ainda que alivie o sofrimento do doente, mas não lhe salve a vida.

Deste modo, deve considerar-se acto licito a chamada ONR (ordem de não reanimação), ou a interrupção de tratamentos “ desproporcionados e ineficazes”, sobretudo quando agravam o sofrimento, ainda que encurtem a vida do paciente.

A eutanásia activa é, naturalmente, a que suscita maior controvérsia no plano ético, porque se repercute na consciência íntima de cada um de nós e faz apelo ás nossas convicções mais profundas. A lei portuguesa pune-a como “homicídio privilegiado”. Com a pena de 1 a 5 anos.

Porém, tratando-se de um doente incurável, numa fase terminal de grande sofrimento, creio que os princípios éticos atrás enunciados, permitem que o próprio decida, em sua livre consciência, sobre a morte, pois a vida perdeu toda a dignidade e deixou de ter sentido. Se encontrar alguém que o ajude a libertar-se desse sofrimento inútil, não serei eu a censurá-lo.

Ética e Direito são o anverso e o reverso, da mesma realidade. A ética precede ao direito, porque antes das leis positivas, feitas pelo homem, há as leis naturais, ou leis-comandos, como lhe chamava Montesquieu, que são inerentes, consubstanciais, à razão humana. As tábuas da lei Mosaica, que inspiraram todas as legislações, e que ainda hoje se mantêm válidas — não matar, não furtar… — representam valores éticos eternos. Os direitos fundamentais do homem, hoje universalmente aceites — o direito à vida, à liberdade, ao trabalho e à saúde, por exemplo — são conquistas da Humanidade, inspiradas nas mais remotas preocupações éticas.

Contudo, apesar do longo caminho percorrido, há ainda, mesmo em Portugal manchas negras da população excluída da protecção do direito, dos direitos fundamentais.

Contudo no devir histórico, na marcha inevitável da Humanidade para estádios cada vez mais igualitários. Porque não há igualdade sem justiça, tomada a palavra no sentido ético, que manda dar a cada um o que lhe pertence.

Como escreveu o Rei D. Duarte, na célebre carta de Bruges, “a justiça tem duas partes: huma de dar a cada hum o que se lhe deu, e a outra de darlho sem delongas”. Palavras ditas há 470 anos, mas que se mantêm actuais…

Para que a justiça seja pronta e eficaz é imperioso aperfeiçoarmos o Estudo democrático. A partilha do poder e o seu exercício conforme o direito é, um pressuposto do Estado ético. A participação popular, não apenas em eleições, mas na fiscalização permanente dos pobres constituídos, é o verdadeiro garante da democracia, no seu sentido literal: governo do povo, pelo povo e para o povo. Só assim o direito será justo. Mas o direito deve realizar a justiça não apenas na sua formulação em normas jurídicas, mas sobretudo na sua aplicação concreta. Como disse Savigny, “mais importante que todas as leis é o espírito dos juristas”, pois são eles que interpretam e aplicam. A lei nunca será justa se os magistrados e os advogados não tiverem um sentido ético da sua função. mas isso é outro  problema…

“ se falta a justiça, a prudência converte-se em astúcia; a afabilidade em chocarrice; a liberdade em prodigalidade; em suma, todas as virtudes antes se podem chamar simulacros e sombras de virtudes. Onde a justiça não se encontra presente, aí não há paz, nem tranquilidade, nem se goza de nenhum prazer digno do homem” este livro foi publicado em 1584. Mas a lição do sábio português permanece viva, e mostra que os grandes princípios éticos constituem, afinal, a verdadeira sabedoria dos povos. Povos que, apesar de tantas vicissitudes, sempre lutaram contra a tirania, na esperança de que é possível constituir um mundo melhor, baseado no primado do direito e da justiça, afinal, um mundo fundado na gloriosa tríade — Liberdade, Igualdade e Fraternidade — que é a ideia-força de que se alimenta  a História e há-de fazer germinar o futuro, onde o pleno usufruto dos direitos humanos, da dignidade da pessoa.

Seja a seara colectiva de uma sociedade justa e perfeita.

Marcos Santos


TABACARIA

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é

(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,

Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,

Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,

E não tivesse mais irmandade com as coisas

Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua

A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada

De dentro da minha cabeça,

E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.

Estou hoje dividido entre a lealdade que devo

À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,

E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.

Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.

A aprendizagem que me deram,

Desci dela pela janela das traseiras da casa,

Fui até ao campo com grandes propósitos.

Mas lá encontrei só ervas e árvores,

E quando havia gente era igual à outra.

Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!

E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

Génio? Neste momento

Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,

E a história não marcará, quem sabe?, nem um,

Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

Não, não creio em mim.

Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!

Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?

Não, nem em mim…

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo

Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?

Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —

Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,

E quem sabe se realizáveis,

Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?

O mundo é para quem nasce para o conquistar

E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,

Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.

Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,

Ainda que não more nela;

Serei sempre o que não nasceu para isso;

Serei sempre só o que tinha qualidades;

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta

E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,

E ouviu a voz de Deus num poço tapado.

Crer em mim? Não, nem em nada.

Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente

O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,

E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.

Escravos cardíacos das estrelas,

Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;

Mas acordámos e ele é opaco,

Levantámo-nos e ele é alheio,

Saímos de casa e ele é a terra inteira,

Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;

Come chocolates!

Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.

Come, pequena suja, come!

Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!

Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,

Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei

A caligrafia rápida destes versos,

Pórtico partido para o Impossível.

Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,

Nobre ao menos no gesto largo com que atiro

A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,

E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,

Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,

Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,

Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,

Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,

Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,

Ou não sei quê moderno — não concebo bem o quê —,

Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!

Meu coração é um balde despejado.

Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco

A mim mesmo e não encontro nada.

Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.

Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,

Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,

Vejo os cães que também existem,

E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,

E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,

E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.

Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,

E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses

(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);

Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo

E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,

E o que podia fazer de mim não o fiz.

O dominó que vesti era errado.

Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.

Quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,

Já tinha envelhecido.

Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como um cão tolerado pela gerência

Por ser inofensivo

E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,

Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,

E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,

Calcando aos pés a consciência de estar existindo,

Como um tapete em que um bêbado tropeça

Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.

Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada

E com o desconforto da alma mal-entendendo.

Ele morrerá e eu morrerei.

Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.

A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.

Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,

E a língua em que foram escritos os versos.

Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.

Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente

Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,

Sempre uma coisa tão inútil como a outra,

Sempre o impossível tão estúpido como o real,

Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,

Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),

E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.

Semiergo-me enérgico, convencido, humano,

E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los

E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.

Sigo o fumo como uma rota própria,

E gozo, num momento sensitivo e competente,

A libertação de todas as especulações

E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira

E continuo fumando.

Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira

Talvez fosse feliz.)

Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).

Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.

(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)

Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.

Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo

Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Fernando Pessoa